A LIBERDADE(Leia o textos, artigos de opinião e reflexão no blogue ARIEL DA SILVA MOZ)

A liberdade

Texto de Inocêncio Estêvão Manhique

(texto ligado á política moçambicana, sobre a dependência ou independência do estado, liberdade de se dizer o que se pensa e se fazer o necessário para o bem de todos...) 



Quando Malcolm X disse que quem não está pronto para morrer pela liberdade deve tirar essa palavra do vocabulário, ele não estava a falar só para ativistas. Estava a falar para povos inteiros. Para países que gritam independência nas praças, mas vivem de mão estendida nos gabinetes internacionais.
Moçambique é um país rico. Isso não é discurso, é facto. Temos gás em Cabo Delgado, temos ouro, rubis, grafite, terra fértil, mar, juventude cheia de força. Mas quando se fala de divisas, o país treme. Quando o dólar sobe, o mercado sente. Quando o Fundo Monetário Internacional fecha a torneira ou atrasa um desembolso, a economia entra em ansiedade.
E aí surge a pergunta que incomoda: como pode um país com tanto ainda se submeter à mendicidade dos agiotas internacionais?
Não se trata de romantizar isolamento. O mundo é interdependente. Mas dependência não é interdependência. Dependência é quando as decisões internas ficam condicionadas ao olhar de fora. É quando o orçamento nacional precisa primeiro da aprovação externa para respirar.
Frantz Fanon já alertava que o maior perigo depois da independência é manter a mentalidade de dependência. A bandeira muda, o hino muda, mas a estrutura económica continua virada para fora. Exportamos matéria-prima barata, importamos produto caro. Extraímos riqueza, mas o valor final fica longe do povo.
Thomas Sankara dizia que a dívida pode ser uma nova forma de colonialismo. E é uma pergunta simples que ele fazia: quem realmente beneficiou dessas dívidas? Foi o povo nas zonas rurais? Foi o jovem desempregado? Ou foi uma minoria que decidiu em nome de todos?
Quando há escassez de divisas, não é só um problema técnico. É reflexo de escolhas políticas. É reflexo de contratos mal negociados. É reflexo de fuga de capitais. É reflexo de uma economia que consome mais do que produz e que protege mais interesses privados do que nacionais.
Amílcar Cabral ensinava que libertação não é apenas expulsar o colono; é transformar a estrutura que produz desigualdade e dependência. Se a riqueza do subsolo não se transforma em indústria, em emprego, em valor agregado, continuaremos ricos debaixo da terra e pobres à superfície.
A questão não é odiar o FMI. O Fundo Monetário Internacional não é amigo nem inimigo; é instituição de interesses. O problema é o modelo que nos obriga, repetidamente, a bater à sua porta. O problema é celebrar empréstimos como se fossem conquistas.
Um país verdadeiramente soberano não vive permanentemente à espera de desembolsos. Um país soberano organiza a sua produção, protege a sua moeda, investe na sua indústria, controla a fuga de capitais e responsabiliza quem gere mal o erário.
Liberdade económica não é discurso bonito em conferência. É disciplina, é transparência, é coragem para cortar privilégios internos antes de pedir ajuda externa.
Talvez a pergunta mais honesta seja esta: queremos soberania ou apenas sobrevivência financiada?
Porque enquanto não enfrentarmos as causas da dependência corrupção, má gestão, falta de industrialização real, captura do Estado por interesses privados continuaremos a discutir sintomas.
E então a frase de Malcolm X volta a ecoar: se não estamos prontos para assumir o preço da verdadeira liberdade económica, talvez devamos parar de usar essa palavra com tanta facilidade.

A dignidade de um país não se mede pelos recursos que possui, mas pela forma como os transforma em bem-estar para o seu povo.

Visite Inocêncio Estêvão Manhique no Facebook 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O TALENTO MORREU???(leia este texto, artigo de opinião e reflexão no blogue ARIEL DA SILVA MOZ)